Estudo com saguis ajuda a compreender o medo e a ansiedade, no trânsito?

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O medo no trânsito é um fenômeno emocional que afeta milhares de pessoas no Brasil. Segundo os estudos, as mulheres são 85% do publico que mais sofre com o problema que pode afetar diretamente a vida profissional e pessoal dos indivíduos.

Novas descobertas da neurociência 

A constatação de que corremos perigo provoca medo, ninguém duvida. Já os estímulos sutis, que implicam incertezas sobre a ameaça, ansiedade. Em ambos os casos, trata-se de resposta adaptativa que ajuda os seres vivos a escapar de situações perigosas. No entanto, pesquisadores observam que distúrbios como transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno do pânico e fobias são acompanhados pelo medo exagerado ou ansiedade em relação a estímulos inócuos.

Aparentemente, as duas emoções dependem de circuitos neurais paralelos, sobrepondo-se parcialmente em algumas áreas que unem a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal. Pesquisadores demonstraram que o córtex pré-frontal é a chave na regulação tanto do medo quanto da ansiedade. Estudos com pacientes que sofrem de patologias neuropsiquiátricas relacionadas com a ansiedade revelaram disfunções na estrutura cerebral. Contudo, a comparação direta de resultados de estudos feitos com roedores e com pessoas não parece tarefa fácil, em grande parte pela enorme complexidade do lóbulo frontal humano.

Duplo controle 

No laboratório da pesquisadora Angela C. Roberts, na Universidade de Cambridge, o sagui – um pequeno macaco, muito comum na América do Sul – é usado como modelo experimental com o objetivo de diminuir a distância entre a pesquisa em roedores e a pesquisa em humanos. Para compreender profundamente as respostas emocionais dos primatas, são analisados seu comportamento e suas reações automáticas com ajuda de um sistema de telemetria. Esta ferramenta permite o acompanhamento do ritmo cardíaco e da pressão sanguínea em tempo real enquanto os saguis enfrentam diversos tipos de estímulos.

Durante minha estadia na Universidade de Cambridge, a pesquisa com esses primatas confirmou que uma região concreta do lóbulo frontal, o córtex orbitofrontal, se encarregava de orquestrar as respostas emocionais. Em 2008, achamos que os saguis com uma microlesão nessa área cerebral apresentavam falta de coordenação entre o comportamento e as respostas cardiovasculares – da mesma maneira que acontece em alguns pacientes que sofrem de doença neuropsiquiátrica.

Em um trabalho publicado no ano passado no periódico científico Biological Psychiatry, também constatamos que lesões tanto da área  orbitofrontal como do córtex ventrolateral pré-frontal adjacente intensificavam o medo desses pequenos primatas num tipo de condicionamento em que um som precedia um evento desagradável. Além disso, era mais difícil extinguir o medo demonstrado por esses animais. Por meio da análise das reações dos saguis com a chegada de uma pessoa desconhecida, o que os deixava agitados, era avaliado seu grau de ansiedade. Esse estado era aumentado se o animal apresentava as duas lesões cerebrais.

 Modelos perfeitos

Os simpáticos saguis (Callithrix jacchus) estão ganhando popularidade entre neurocientistas. Pequenos, de fácil manipulação e capazes de se reproduzir em cativeiro, têm cérebro muito semelhante ao humano, especialmente na área do córtex pré-frontal – o que os torna ótimos modelos animais para os estudos. Porém, saguis com a área ventrolateral afetada reagiam de forma mais ameaçadora diante de um intruso em comparação com os animais do grupo de controle, sem alteração neurológica. Os cientistas acreditam que dois subdivisores do córtex pré-frontal – o orbitofrontal e o ventrolateral – contribuem, ainda que de formas independentes, para o controle das emoções negativas nos primatas. Essa descoberta é essencial para o desenvolvimento de novas terapias mais eficazes no tratamento de transtornos neuropsiquiátricos associados a ansiedade e medo.

Autor: Carmen Agustín Pavón
Fonte: Cientific American Mente e Cérebro

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